Rádio Engenho Velho

quinta-feira, 29 de março de 2012

CINEMA EM CASA

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01. A Missão
07. Sócrates
09. A Estrada
26. Stigmata 
Filmes Bíblicos/Religiosos/Épicos
Filmes Romance/Drama
10. Olga Imagem removida pelo remetente.
11. Titanic Imagem removida pelo remetente.
 Filmes Infanto-Juvenis
03. Pinóquio
 Filmes Ação/Policial/Aventura/Ficção
22. Besouro
 Filmes Suspense/Policial/Drama
 Filmes Comédia/Romance

DEPREDAÇÃO DOS MONUMENTOS PÚBLICOS


A depredação e o abandono dos monumentos públicos vêm chamando a atenção na paisagem urbana e traz para a cena uma discussão sobre a cidade, cidadania, a responsabilidade pelo bem público e educação patrimonial. Não se trata de revolta contra valores, personagens, datas que esses monumentos significam ou representam, as intervenções e agressões não passam por nenhuma consciência crítica.
Ao longo do tempo a cidade constrói histórias e guarda nas ruas, praças e monumentos, várias memórias. Esse território simbólico é propriedade de todos. Mas o desconhecimento e o desprezo pela cultura e a memória da cidade coloca em cheque a noção de cidadania e a responsabilidade pela guarda, vigilância e conservação. Se a cultura está cada vez mais associada a entretenimento, tudo é diversão.

O vandalismo é um comportamento de uma sociedade individualista, que deu as costas aos valores e princípios, da moral e da ética. Estes foram substituídos por um desejo perverso de deixar na cidade o registro da violência e da impunidade. Uma brincadeira que aponta para a falta de compromisso com a coisa pública e com a memória da cidade, e se espalha como um vírus.
Talvez os heróis da cidade não sejam mais os homens públicos ou personagens da história da cidade, do Estado e/ou do País os que estão sinalizados no espaço público, e sim como proclama um apresentador de TV, são os halterofilistas do sexo e das banalidades que aparecem nesses programas líder de audiência.
Não só os monumentos, as fontes, o mobiliário e equipamentos urbanos como os telefones públicos, pontos de ônibus, lixeiras são alvos de alguma forma de depredação. A cultura da cidade está em recessão. Houve uma perda de sentimento e cuidado com o patrimônio coletivo, sem esquecer o aumento da população marginalizada, sem acessos às mínimas condições de sobrevivência.
Paralelo ao crescimento da cidade se desenvolveu todo tipo de marginalidade e violência.
Os bens públicos, administrados pelo Estado, são de responsabilidade de todos, sua guarda, conservação e vigilância. Mas uma população que despreza a memória, ninguém mais presta atenção nem de quem é o busto, o que significa o monumento, muito menos se interessa em saber do serviço que aquele equipamento presta a população e muito menos o que custa a sua manutenção.
Não há mais tempo para a educação e o frenesi da rua, ela é apenas o lugar de passagem de trabalhadores e consumidores. E uma vez por ano é a estrada do trio elétrico que arrasta o que resta nela e deixa no dia seguinte cicatrizes no patrimônio natural e cultural.
Por outro lado em nome da arte deposita-se qualquer coisa em qualquer lugar como se a cidade fosse um reservatório de uma forma estranha de auto-afirmação. Aprendemos com o progresso a produzir lixo, toda espécie de lixo que é lançado na cidade. É a barbárie moderna que decretou o fim da paisagem urbana, como uma construção coletiva e civilizada. Mais uma forma de agressão contra o espaço público. As intervenções da arte obedecem a outro raciocínio.
A educação deveria ser o principal meio de recuperação da civilidade e dos valores indispensáveis à vida social. Mas na própria escola se desencadeiam os pequenos atos de vandalismo, que começa com o chiclete na carteira e as pichações até a depredação das esquadrias e do mobiliário da escola.
Almandrade
Artista plástico, poeta e arquiteto. Para mais artigos deste autor clique aqui

sexta-feira, 23 de março de 2012

BAIANOS & OS NOVOS CAETANOS




















TIRE DO BALAIO


Faixas:
01. Vô Batê pá Tu
02. Nega
03. Cidadão da Mata
04. Urubu Tá com Raiva do Boi
05. Aldeia
06. Ciranda
07. Folia de Rei
08. Véio Zuza
09. Selva de Feras
10. Tributo ao Regional
11. Dendalei


O disco em questão foi lançado em 1974 para aproveitar o sucesso dos personagens Baiano e Paulinho, criados por Chico Anysio e representados, respectivamente, por ele e seu maior parceiro, o cantor, compositor, ator e também humorista Arnaud Rodrigues. O grupo Baiano & Os Novos Caetanos fazia engraçadas aparições no Chico City, um dos vários programas que Chico Anysio teve na grade de programação da TV Globo durante os anos 70. Ao que consta, a idéia dos personagens surgiu da revolta que a prisão e o exílio de Caetano e Gil causaram em todo o meio artístico - servia como sátira, sim (incluindo no meio os Novos Baianos, de Moraes Moreira e Luiz Galvão), mas era uma homenagem a dois artistas cuja prisão sequer pôde ser noticiada decentemente nos jornais nacionais, devido à censura. Atitudes como a da dupla Chico/Arnaud e a de outra dupla, Roberto e Erasmo (ao compor "Debaixo dos caracóis dos seus cabelos" para Caetano) ajudavam a passar a mensagem por debaixo da porta - e versos como o do maior sucesso de Baiano & Os Novos Caetanos, já diziam tudo. "Vô batê pá tu", parceria de Arnaud Rodrigues e do samba-rockeiro Orlandivo, pegava pesado na questão da delação de artistas subversivos durante o período da ditadura ("vô batê pá tu/batê pá tú/pá tu batê/pá amanhã a pá não me dizê/que eu não bati pá tu/pá tu podê batê"), incluindo ainda um discurso bem próximo do som bandido de Bezerra da Silva ("deduração/um cara louco que dançou com tudo/entregação do dedo de veludo"). O som era um samba-rock nordestino, suingado. A música era ambientada como se fosse um quadro de Chico City, com palmas, risadas e até participação de outro personagem de Chico, Lingote, mais perdido que cego em tiroteio ("falôôôô, é isso aí, malandro... tem que se ligar aí nesse som... mas o que é que eu tô fazendo nesse disco, malandragem?"). 

O lado A de Baiano & Os Novos Caetanos era, em sua maioria, dominado por uma mistura de samba, rock, forró e lisergia, que faria a alegria de dez entre dez adeptos do mangue bit - estranhamente, ninguém se lembrou de gravar nenhuma música do álbum, e olha que boa parte delas daria ótimos samples. "Nêga", a segunda música, era aberta em ritmo de funk, com guitarra e metais - e logo virava um samba-rock cheio de efeitos vocais, cheio de guitarras com fuzz. Em "Cidadão da mata", composta por Chico e Arnaud, mais guitarras, samba, rock e nordeste, unidos a sons da mata e a pelo menos um verso cara-de-pau, lido por Chico: "Amo a mata, porque nela não há presos". Chico, que costumava imitar a voz e o sotaque dos irmãos Caetano e Bethânia na televisão, abre o forrock "Urubu tá com raiva do boi", recitando, em baianês: "o medo, a angústia, o sufoco, a neurose, a poluição, os juros, o fim, nada de novo... a gente de novo só tem os sete pecados industriais". Na letra, fome, injustiça social by Médici/Geisel, de ilusão, meio ambiente e censura, graças aos versos e às frases ditas por Chico entre um acorde e outro. Fechando, regionalismos em "Aldeia" e "Ciranda" (que cita nominalmente: "saudade de Caetano, de Gal, de Bethânia, de Gil"). 

O lado B do disco é repleto de regionalismos, em músicas como a sertaneja "Folia de Rei", o choro "Tributo ao regional" e nas letras de várias faixas. Mas as misturas continuam, no forró-soul (!) "Véio Zuza", coadjuvado pelo próprio personagem criado por Chico, no samba-rock "Selva de feras" (outra parceria de Arnaud e Orlandivo, lembrando o estilo deste último em músicas como "Guéri-Guéri"). "Dendalei", misturando ritmos nordestinos, sanfona e riffs de guitarra duas décadas antes dos Raimundos, pregava: "sou fâ do livre pensamento". Um discurso bem complicado para a época... mas provavelmente o humor e a Globo ajudaram a dissolver uma série de coisas que estavam explícitas no texto de Chico Anysio e Arnaud Rodrigues. 



O sucesso do disco foi tão grande que os realizadores seriam convidados para shows no MIDEM, famosa feira de música realizada em Cannes, na França - convite este recusado por Arnaud e Chico, que preferiram uma turnê pelo Brasil. A dupla Baiano & Paulinho (e os Novos Caetanos) ainda apareceria em vários programas de humor e em outros lançamentos - em 1975, saía Baiano & Os Novos Caetanos 2, pela Som Livre, e nos anos 80 ainda sairiam outros discos. Arnaud, que ficou muito conhecido do público por outra dupla (Xitãoró e Xorãozinho, que interpretava com Marcelo de Nóbrega no programa A praça é nossa) ainda brilharia em outro disco,Murituri, lançado em 1974, com mais rock, samba, nordestinidade e psicodelia de arrepiar os cabelos, em músicas como "Murituri" e "Nêga" (a mesma de Baiano &...). Chico também voltaria ao disco em registros ao vivo (Chico ao vivo, Som Livre, 1976) e a dupla ainda se reuniria para gravar o disco do personagem Painho - uma espécie de sátira aos pais-de-santo, que começariam a se tornar famosos na mídia durante a década de 80. No todo, um discurso cujo humor acabou proporcionando sua absorção pela mídia, pelo povo e até pelos então donos do poder. Só que, como ocorre também com vários outros artistas (de Ultraje a Rigor a Falcão e Rogério Skylab), há muito mais do que apenas bom humor ali. Sorte de quem entendeu. 


Texto de Ricardo Schott, publicado no site discotecabasica.com.