Rádio Engenho Velho

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

PALCO OU BASTIDORES?


O programa setorial da cultura brasileira aponta que, quando perguntados sobre seu ingresso na atividade, em respostas múltiplas, 31% dos produtores/gestores culturais entrevistados trabalham como meio para “atingir a vocação – ser ator, músico, diretor, cantor etc.”; 47%  são artistas que, por conta disso, tornaram-se produtores; 25% pertencem a grupos artísticos que precisavam de um produtor; 19% foram influenciados por terem artistas na família e, ainda, 25% tiveram influência de amigos artistas ou produtores.
Visto assim, fica claro entender que a atividade de produtor cultural não é considerada um fim em si mesma; ela é a ponte para a realização como artista ou a alternativa quase obrigatória para aqueles que já são ou tem envolvimento com artistas.
Tornar-se produtor, para muitos artistas, é o caminho para suprir a falta desse profissional. É o que relata a goiana Fernanda Fernandes, que de atriz passou a produtora: ¨Comecei na produção cultural há dez anos, pela necessidade que vivíamos, na época, de ter alguém responsável por essa função dentro do grupo de teatro que eu integrava¨.
Para Fernanda, a produção pode não ser o caminho ideal para quem pretende exercer uma atividade como artista, mas poderia servir para que o pretendente conhecesse melhor o universo cultural.
Podemos entender que, ainda para muitos, a atividade do produtor cultural é exercida como um estágio, anterior ou posterior, para se ser um artista, dar suporte à atividade artística ou, até, para sair da atividade artística por não ter conseguido realizar-se profissionalmente.
Na opinião do músico e produtor Fernando Santos, também de Goiás, para se exercer a produção cultural “é necessária toda uma formação como artista (seja no palco, como arranjador, como maestro, ator etc.) para que sirva como ponto de partida para sua carreira como produtor”. Santos entende que a produção é uma atividade artística e não descarta a formação técnica ou acadêmica para desenvolver a atividade.
Temos esse olhar confuso sobre a atividade de produtor cultural devido, muitas vezes, à falta de reconhecimento da profissão e, consequentemente, à delimitação de sua atuação. Ainda é muito comum produtores e artistas virem a si próprios em papéis invertidos, e não complementares.
Outra consequência desse olhar voltado para o fazer artístico é que o produtor, ao se perceber experiente nesta área que domina, desconsidera a necessidade de desenvolver outras aptidões e conhecimentos que lhe permitiriam favorecer sua integração em outros ambientes como, por exemplo, os setores econômicos de organizações sociais ou os ambientes político-legais de instituições públicas.
É hora de escolher em que lado se quer atuar: no palco ou nos bastidores.
Renata Alucci
Sócia da 3D3 Comunicação e Cultura e responsável, com Gisele Jordão, pela pesquisa Panorama Setorial da Cultura Brasileira. Para mais artigos deste autor clique aqui

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